Pensamentos dispersos

As horas se arrastam…o pesar de cada minuto que se demora.
Não queria ter acordado hoje, não devia ter saido da cama…parece ser mais um dia daqueles onde as coisas tendem a não se resolver…onde tudo pende para o lado errado.
Ela se sente estranha…gostaria de ter alguma reação…de gritar, sair correndo, quebrar alguma coisa, chorar até não poder mais…mas não, ela sabe que nada disso solucionaria qualquer problema…talvez a fizesse sentir melhor…talvez ajudasse a aliviar as tensões. Mas apesar da aparente falta de reação, ela sabe que, de alguma maneira, está reagindo a crise. Apesar de se entregar por muitos momentos, ela tem consciência do que está fazendo…e do que terá que fazer para melhorar. Só não sente real vontade (ou seria necessidade) de tomar atitudes. è um daqueles momentos em que a vida parece congelar…em que aparentemente se está parado em um ponto, mas na verdade se está andando em uma fina linha…que separa a realidade do devaneio, a sanidade da loucura, o positivo do negativo…um passo para o lado e se encontra o desespero. Ela está andando no limiar. Equilibrando-se sem esforços (apesar da imensa vontade de se jogar para algum dos lados e sair da estagnação), pondera sua vida…calcula e racionaliza cada pensamento. É como andar em cima de um muro estreito…mas ao mesmo tempo manter um controle frio e calculista sobre cada passo. As vezes eleva seu pé para fora do muro…mas é só uma exitação, logo retorna a linha.

Qualquer um que pudesse a observar a distância se adimiraria com a cena, muitos invejariam o equilíbrio, outros sentiriam aquele frio na espinha de quem vê um malabarista e sabe que a qualquer momento ele pode errar e cair. Mas isso não é um espetáculo, e ela está indiferente a tudo o que se passa ao seu redor.

Fechada em sua própria mente, lembra de quando oscilava entre os extremos…mas sempre existiram esses momentos…onde tudo parecia terrivelmente sob controle…onde apesar da vontade imensa de reagir, de mudar a ordem das coisas (ou até mesmo de não fazer absolutamente nada e dormir até alguma coisa mudar), ela se obriga a manter o controle e a fazer as coisas que dela são esperadas.
“mas eu queria ficar! eu posso ligar e dizer que estou me sentindo mal!! eu posso ser um pouco irresponsável…pelo menos hoje!”
“não! você vai levantar e vai trabalhar…vai resolver tudo o que tem para resolver…vai fazer de conta que está tudo certo. Você tem obrigações, não pode simplesmente fazer o que tem vontade.”
“mas eu sempre fui assim…livre…eu sempre fiz o que quis.”
“agora não mais…”
“mas…”, então ela percebe que argumentar seria inútil…e a disputa entre suas duas faces se encerra…mas uma vez a face racional ganha a discução.
Na verdade ela queria ter sonhos maiores…queria sonhar com sua família, com seus amigos. Queria sonhar que estava feliz, sorrindo…sonhar com o carinho, com as risadas…até com o amor…aquele amor que ela sabe que existe…que ela lembra de ter visto. Queria sonhar com tudo isso e nunca mais acordar, a menos que estivesse lá novamente.
Abre a janela, vê o tempo horrível e cinza lá fora. O céu deste lugar é deprimente…sai, ganha as ruas sem esforços físicos, mas se sente cansada ainda assim. Várias pessoas passam por ela enquanto caminha, mas ela não distingue rostos. Não lhes dá atenção alguma…é como se fossem vultos sem importância. Pensa em sua vida…em como gostaria que as coisas fossem na verdade, e em como as coisas são. Conclui que elas não são de todo ruins, bem pelo contrário…mas ainda assim não consegue parar de pensar que queria que elas fossem diferentes…melhores.
Enquanto caminha, lembra de sua vida.De seus amores antigos (esquecidos ou não), de seus infortúnios, de seus erros…insessantemente se compara a outras pessoas
“eu não consigo acreditar nisso…porque ela conseguiu e eu não? como ela pode ter realemnte mudado tanto?”
“mas pelo menos você sempre foi sincera, e se manteve fiel a quem sempre foi.”
“e todo aquele amor, como eu me odeio por tê-lo sentido…será que estas lembranças nunca vão me deixar? será que esta sombra de sentimento remanescente em meu coração nunca vai sumir?”
“ele nunca te pediu por amor, mas ao menos você sabe que o que sentiu foi verdadeiro.”

E assim segue, tirando conclusões diversas sobre coisas que nunca conseguiu racionalizar…até chegar naquele momento crucial, em que se lembrava de seus traumas passados, seus medos, suas crenças…seus problemas.
“Sempre teve algo errado, desde o começo…eu nunca consegui identificar o que era, mas sempre senti algo errado em mim.”
“pra quem sempre teve algo errado, até que você foi bem longe, não acha? conquistou quase tudo o que quis e sonhou.”

Com esta conclusão decidiu que apesar do Sonhar ser encantador, preferia continuar concretizando sonhos no mundo desperto…e concluiu que andar no limiar não era tão ruim assim…Seguiu em frente e decidiu parar de questionar o passado e simplesmente viver o presente para poder vislumbrar um futuro.

Published in: on April 20, 2009 at 10:11 am Leave a Comment

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